quinta-feira, setembro 26, 2013

Uma maratona de emoções e homenagens

Primeira Maratona

Ok, preparem-se, este post está engasgado faz algum tempo, mais precisamente desde que decidi definitivamente que iria correr minha primeira maratona.

Digo engasgado, pois o assunto deste post foi o grande combustível pra encarar a longa e árdua jornada de tentar me tornar um maratonista. Pra entenderem melhor, é sobre o que me fez agarrar com unhas e dentes a chance de encarar os 42.195m no dia 29/09.

A 2 anos atrás, eu perdi uma das pessoas que mais me deu amor em toda minha vida, e que naturalmente me fez ter admiração e um amor recíproco inigualável. Minha Vó Dolores, foi meu maior suporte na construção de quem eu sou hoje. Deixar de tê-la ao meu lado foi a perda de alguém que conhecia minha essência e sempre me ajudava a entender as coisas da vida. Naquela época, cheguei a escrever um post em homenagem a ela [ link para o post ].

Um dos maiores legados que ela deixou em minha vida foi a paixão pelo esporte. Se hoje sou um viciado em esportes, devo muito a tudo que vivi ao lado da minha vó.

DSCN15801Quando comecei a participar de corridas, a 2,5 anos atrás, ligava pra ela pra contar onde eu e a Juliana (de quem ela era fã!) tínhamos corrido. Ela não entendia muito bem, mas ficava feliz de saber que o neto ainda praticava esportes e principalmente por ver a Juliana encarando os mesmos desafios de um marmanjo como eu. Lembro como se fosse hoje ela dizendo: “Garanto que ela chegou na tua frente!”

Em outubro de 2011, ela não resistiu ao 3º tratamento contra o câncer em menos de 10 anos. Nas últimas conversas que tive com ela, já era perceptível a fraqueza psicológica em enfrentar uma doença fdp como essa. Escutei dela mesmo que não aguentava mais as sessões de quimioterapia, mas aceitou encarar mais uma vez pelo simples amor a vida. Ela não queria morrer, e se emocionava ao perceber que não adiantava querer. Quase sempre desligava o telefone de repente como se não quisesse demonstrar a fraqueza que sentia, mas sempre terminava dizendo um “te amo” que me fazia chorar também.

Em Nova York (março de 2012), na noite anterior a nossa estreia na meia maratona, foi inevitável lembrar dela. Junto com a Jú, lembrei como ela ficaria feliz e orgulhosa de nos ver lá, afinal, foi ela que me ensinou a sonhar grande e principalmente correr atrás dos sonhos sempre acreditando que era possível. Foi a primeira grande conquista na minha vida que não pude compartilhar com ela.

O tempo passou, a corrida tornou-se muito mais que um esporte nas nossas vidas, tornou-se um vício, um estilo de vida, talvez até mais, um estado de espírito quem sabe?!

O que tudo isso tem a ver com minha estreia na maratona? Bem, a muito tempo queria homenagear minha vó em uma corrida, mas tinha que ser algo grande, algo no dia certo…isso mesmo, no dia certo. Para vocês entenderem então: dia 29/09 é a data de nascimento da minha vó, o dia do aniversário dela. E minha homenagem/presente será cruzar pela primeira vez a linha de chegada em uma Maratona pensando nela durante 42km.

Vocês não tem ideia de quantas vezes chorei durante os treinamentos pensando na emoção de poder estar com ela no meu coração e lembrança neste momento marcante da minha vida. Naqueles momentos que a perna cansava durante os treinos longos, as lágrimas se misturavam ao suor e era nela que eu buscava forças para seguir em frente. Visualizei inúmeras vezes a imagem da chegada como o ponto em que eu precisava alcançar por ela, pra ela.

Não quis contar pra ninguém sobre essa coincidência de datas entre a maratona e aniversário da minha vó, muito menos sobre minha intenção de realizar essa homenagem, afinal, eu não sabia se conseguiria chegar até aqui. Nem a Jú sabia disso até essa semana.

Mas calma, a história não acaba por aqui…

DSCN1469No início desse ano, mais uma pessoa que eu amava sucumbiu ao câncer. Minha tinha Regina, irmã do meu pai e única filha mulher da minha vó. Minha relação com ela era de muita confidência e amizade. Era uma fotografa realmente Interminável, como ela mesmo gostava de intitular seus trabalhos. Na última semana da sua vida, tive a oportunidade de conversar com ela, e dessa conversa ficou uma frase, uma lição: “Não adianta querer viver a vida que não há pra se viver, o que devemos fazer é aceitar os caminhos e aproveitar cada instante que ele nos proporciona”.

Desde o início desse desafio, escutei milhares de vezes que uma maratona é uma prova dolorida, que após o km 30 começamos a sentir dores em locais que nem sabemos que existe no nosso corpo. Acredito que tudo isso seja verdade, e no meu caso ainda tenho uma dor causada pela ruptura do menisco medial do JE que já vai incomodar desde a largada. Mas quando lembro todo sofrimento que vi minha vó e minha tinha passarem durante os tratamentos contra o câncer, eu penso: “Dor? Que dor?”

Fica difícil reclamar de dores quando a gente presencia o sofrimento de quem se trata contra o câncer. O que são apenas 42km doendo aqui ou ali, perto de uma pessoa que luta contra células estúpidas que querem lhe tirar a vida? A agonia de quem se submete a uma quimio ou radioterapia tentando sobreviver é muito maior que qualquer dor provocada por uma maratona.

Eu sei que vai doer, sei que meu corpo vai sofrer, mas nessa hora, lembrar que aquilo é passageiro vai me confortar, minha vida não acaba ali. Quem sofre com o câncer não tem essa mesma certeza.

Agora vocês conhecem a história que me motivou enfrentar mais de 420km de treinamentos e ir em busca da linha de chegada dessa maratona, homenagear minha vó Dolores pelo seu aniversário, mas também minha tia e as pessoas que sofrem ou sofreram com essa doença desgraçada chamada câncer.

Minha vó me ensinou que a vida são momentos, e que cada momento é único! Por isso eu não queria deixar essa chance de estrear na maratona em uma data tão especial.

Domingo vou correr minha primeira maratona por todas aquelas pessoas que o câncer me tirou. Elas estarão comigo em cada centímetro dos 42.195m, a cada dor vou lembrar do sofrimento delas, e na chegada…. aaah a chegada….essa vou contar na semana que vem o que eu senti.

Minha primeira maratona será dedicada para Dolores, Regina e contra o câncer.

Vídeo que gravei em 2010 na minha passagem por Chicago e enviei pra minha vó ainda em vida. (Editado em 2011 após sua morte.)

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